O que aprendi nas Eleições 2018 – motivação e reações

Luciano Queiroz

Decidi me filiar ao Partido dos Trabalhadores (PT) no início de abril de 2016. Meu objetivo: aprender a fazer política partidária e aprofundar meu ativismo político na área de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I). Ainda em 2016 ajudei de forma voluntário uma candidatura para vereador em Goiânia, foi uma experiência interessante.

Em 2017, já em São Paulo, me aproximei do partido, de outros grupos de ciência e divulgação científica, e grupos de renovação política. Fiquei o ano todo pensando em como fixar uma bandeira da CT&I no território da política, dizendo para o restante da sociedade, “estamos aqui e queremos participar”.

Uma coisa eu sabia, seria quase impossível conciliar o doutorado com uma campanha eleitoral. Além disso, também tenho outras atividades de divulgação científica como o site Dragões de Garagem. Mas eu queria participar e no começo de 2018 iniciei a organização da minha campanha para deputado estadual.

Quando me filiei já sabia como seriam as reações das pessoas, 2016 era o auge do impeachment e naquele momento eu não tinha motivo para divulgar minha filiação partidária, as pessoas que eram do meu ciclo de amigos sabiam por convivermos e conversar sobre política. Mantive assim até maio de 2018, quando lancei minha pré-candidatura a deputado estadual por São Paulo (vídeo de lançamento da campanha).

Eu estava preparado para as reações. A maioria, dentre as pessoas que acompanham meu trabalho de divulgação científica, foram positivas: “já tenho o meu candidato”, “finalmente um candidato cientista”; outras foram mais ou menos negativas: “Eu sorri, fiquei feliz, bati palma e… chorei. Por essa legenda, não dá, que pena.”, “Fiquei feliz até ver a legenda do partido! Vc teria o meu voto, mas com esta legenda…”. Um comentário interessante foi, “acompanho o Luciano há anos e ele nunca transpareceu uma preferência partidária no conteúdo que produz, quem sabe ele não será um futuro Haddad ou Suplicy”. Gostei desse último porque são duas personalidades que gosto e me inspiro em suas atuações políticas.

Mas algumas reações não escritas me impactaram de uma forma diferente. Muitas pessoas que estavam próximas e outras que eram próximas mais nem tanto, se afastaram. Imaginei que a candidatura de um jovem cientista pudesse mobilizar alguns cientistas a se engajarem na política, mas o efeito foi o contrário, sendo que o principal motivo para isso foi ser petista. Outro motivo deve ser simplesmente o desprezo pela política.

A impressão que tenho é de que não importa o quanto a pessoa me conhece, o fato de ser petista me resume ao estereótipo corrupto. Eu realmente esperava que cientistas, pesquisadores ou docentes tivessem uma capacidade de julgamento maiores sobre as pessoas, mas, resumir a pessoa baseado em uma única informação é mais fácil, mais confortável. Na realidade, fui inocente e romântico.

Quando me filiei, disse a um amigo próximo, “fica por perto porque preciso de pessoas boas e que pensem diferente próximas de mim”. Disse isso porque sei como funcionam dinâmicas de grupos, um partido político, assim como conselhos, sindicatos, associações ou um conjunto de amigos são grupos de pessoas. Grupos que compartilham de questões em comum tendem a concordar mais e sentir-se bem uns com os outros. Eu sabia que estaria sujeito a isso me filiando ao PT e participando do seu dia a dia.

Todos estamos sujeitos a isso, prestem mais atenção em suas interações sociais e perceberão como começamos a concordar com coisas que até então não concordávamos, simplesmente por ouvir a mesma coisa várias vezes e aos poucos mudar de opinião ou para nos sentirmos parte de algo (o ensino fundamental e médio são o maior experimento disso). Por isso falei aquilo para o meu amigo. Mas o que aconteceu foi o oposto, esse afastamento das pessoas me isolou e forçou que eu me aprofundasse ainda mais no partido.

O maior exemplo disso foi uma tentativa de articular a organização de uma feira de ciências aqui em São Paulo. Conversei com algumas pessoas e duas me disseram que topariam ajudar, mas não gostariam de participar de algo vinculado a um partido político. Em momento algum da conversa mencionei o PT, mas o simples fato de ser petista e querer organizar um evento já é o suficiente para associar o evento como um todo ao PT.

Essa é a primeira parte de uma série de textos que irei escrever fazendo uma reflexão sobre minha experiência durante as Eleições de 2018. O próximo texto será publicado na quinta-feira (15/11).