Alastrim

Luciano Queiroz

I

Omolu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas lá em cima os homens ricos se vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da África, não sabia destas coisas de vacina. E a varíola desceu para a cidade dos pobres e botou gente doente, botou negros cheio de chagas em cima da cama. Então vinham os homens da saúde pública, metiam os doentes num saco, levavam para o lazareto distante. As mulheres ficaram chorando, porque sabiam que eles nunca mais voltariam.¹

Eis que nos idos de fevereiro chegou à cidade um velho rico. Ele vinha de longe, do além-mar, lá da Itália. Tinha ido a negócios, voltara assim que as coisas ficaram ruins por lá. Assim que chegou, exasperado pelo retorno – a vontade de ver os amigos e a família era grande – deu uma festa em sua casa. Ele só não sabia que carregava consigo a bexiga, não, não era bexiga, essa doença não causava chagas como a varíola. Ela era invisível até aos doentes. Só a percebiam quando o corpo ficava quente, quando uma tosse seca tomava conta de suas bocas e quando lhes faltavam ar. Os ricos logo eram atendidos, medicados e em alguns dias estavam melhores. Nos hospitais que iam, nem era preciso esperar, e os doutores estavam sempre por lá.

Tudo aconteceu muito rápido. Em uma semana os jornais falavam da tal doença, na outra ela tinha chegado por aqui. Não tardou e a televisão só falava disso, as rádios só falavam disso e em toda roda de conversa esse era o assunto. Doença misteriosa, de que ninguém nunca ouvira falar. Diziam que matava mais gente velha, e que nos jovens iria causar uma gripe, mas não foi o que aconteceu. Ela pegou todo mundo. Muito velho e muito jovem morreu. Será que foi uma praga de Deus? Dizem que Deus é bondoso e justo, mas que pune quando se faz necessário. Mas os cientistas diziam que era um vírus, um vírus que vivia em morcegos e tinha passado para o homem lá na China.

Se vinha da China ou se era uma praga, já não importava. Em um mês, desde que o velho chegou por aqui, o número de gente doente aumentou. Depois a vida mudou. Disseram na TV que não era para sair de casa, disseram que qualquer um poderia pegar e passar para outras pessoas. Nesse mês todo mundo obedeceu, via-se um ou outro nas ruas, mas muitos não conseguiam, tinham que trabalhar porque seus patrões não os liberavam. Os quais, igual boi quando são levados para o frigorífico, se amontoavam nos poucos ônibus e metrôs que continuaram rodando.

No começo diziam que as máscaras eram apenas para médicos e enfermeiros, eles tinham medo que as máscaras vendidas em farmácias acabassem. Depois, disseram que todos deveriam usar, mas já não tinha mais onde comprar, então todo mundo começou a fazer suas próprias máscaras. Agora, todos usam máscaras o tempo todo. No começo, dia sim, dia não, o presidente falava na TV. Segundo ele, logo esse problema iria passar, o melhor era voltar a trabalhar, voltar ao normal. Mas os prefeitos e governadores diziam para ficar em casa. Verdade é que ninguém nunca entendeu o que era para fazer.

Mas os casos continuaram aumentando, e as falas do presidente, a diminuir. As pessoas já não aguentavam mais ficar dias e mais dias dentro de casa e, incentivadas por suas falas, começaram a sair. Começou a morrer ainda mais gente. A empregada preta de uma velha rica ficou doente, foi para o hospital e em poucos dias morreu. A velha não a liberou do trabalho. Depois mais e mais. “Ficou sabendo? Hoje morreram mais de mil”, alguém comentava.

Todo dia dava na TV que, segundo dados do Ministério da Saúde, morreram tantas mil pessoas. Mostravam os rostos de algumas delas, conversavam com parentes – pessoas que amavam o morto. Eles também conversavam com médicos, que estavam sempre encapuzados com um tecido fino e branco, máscaras, gorros e luvas. Diziam que a situação era ruim, que os hospitais estavam lotados e que só poderiam atender casos graves.

“O Brasil registra 5 mil mortes”, dizia a TV. Logo foram 10 mil, 20 mil e, em meados de junho, foram 50 mil mortos. Nesse momento todos já estavam de volta às ruas. Os prefeitos, que antes mandaram fechar comércios e diziam para ficar em casa, mandavam o comércio reabrir. E o número de mortos continuou aumentando: 60 mil, 70, 100, 200 mil pessoas. Mas nesse ponto, ninguém mais dava importância. Todos se acostumaram. Se acostumaram a lavar as mãos, a usar máscaras, a que mais cedo ou mais tarde também iriam pegar o tal vírus e, o pior de tudo, se acostumaram com a morte. Os prefeitos nada fizeram, o presidente, muito menos.

  

 II

Omolu espalhara a bexiga na cidade. Era uma vingança contra a cidade dos ricos. Mas os ricos tinham a vacina, que sabia Omolu de vacinas? Era um pobre deus das florestas d’Africa. Um deus dos negros pobres. Que podia saber de vacinas? Então a bexiga desceu e assolou o povo de Omolu. Tudo que Omolu pôde fazer foi transformar a bexiga de negra em alastrim, bexiga branca e tola. Assim mesmo morrera negro, morrera pobre. Mas Omolu dizia que não fora o alastrim que matara. Fora o lazareto. Omolu só queria com o alastrim marcar seus filhinhos negros. O lazareto é que os matava.¹

Certa vez, a mãe de uma enfermeira morta pela doença falou, com uma voz embargada, na televisão: “O caixão está lacrado, não tem nem vidro, nós estamos 20 metros do lugar onde pôs ela. Eu nunca pensei que eu ia enterrar minha filha. O tesouro que eu tinha, e se Deus levou ela é porque tinha terminado a missão dela e porque Ele vai cuidar de nós”.

Se foi uma praga de Deus ou apenas um vírus que estava na natureza, foi direcionada aos ricos. São eles quem estão cortando florestas, queimando-as, cavando suas montanhas em busca de metais valiosos, poluindo o ar e os rios e moendo os pobres. Deus não é cruel. Muito menos a natureza. Ele nunca iria desejar um mal como esse para seu povo, um povo pobre e sofrido que tanto o ama. Já a natureza é isso, sem medo, nem dó nem drama. Ele vai cuidar de nós. Logo Ele vai mandar a cura. E ela vai vir da natureza.

Muito foi dito sobre um remédio que curava as pessoas, parece que ele era usado para pessoas com malária. Uns diziam que funcionava, e outros diziam que não. Parece que, em relação a essa doença, tudo é indecisão. Deu na TV que muitos cientistas estão trabalhando em uma vacina. Dizem que por ser um vírus novo e não sabermos nada dele, uma vacina iria demorar mais. Vacina sempre foi algo comum, todos tomavam desde criança. O que ninguém sabia era como as vacinas eram feitas. Certa vez passou no domingo uma matéria especial sobre isso, na segunda os velhos e malandros só falavam disso na praça. Todos com suas máscaras e cada qual usando do seu jeito. Ainda não se sabe quando a tal vacina irá chegar por aqui. Quando chegar, os ricos devem comprar tudo. Então, quem sabe quando irá chegar para os pobres?

Morreu muita gente. Muito preto, pobre, que vivia na favela. Gente que nem ia para o hospital porque sabia que não teria vaga, muita gente que morreu em casa, sem ajuda, sem ar. Ainda não se sabe se volta ao normal ou se fica em casa. Ainda insistem que o tal remédio cura a doença. Ainda não se sabe quando vai chegar a vacina. Muitos diziam que o vírus era democrático, não escolhia quem iria contaminar ou matar, que não tinha o que fazer, além de voltar à vida normal. Mas mesmo assim morreram mais pretos, índios, pobres, favelados. Não fora o vírus quem os matara. Fora o homem.

Luciano Queiroz é cientista, biólogo e doutorando em microbiologia pela USP.

¹ Trechos extraídos do livro “Capitães da Areia” de Jorge Amado. 

² A figura que ilustra o texto pertence à história em quadrinho Daytripper dos autores Fabio Moon e Gabriel Bá.